Casos Clínicos

 A Maldição da Bruxa

     C.G. era uma jovem de 21 anos que desde a infância demonstrava possuir aptidões “estranhas”.     Via sombras se mexerem à noite em seu quarto, acordava gritando com a sensação de que existiam pessoas ao seu redor e ouvia vozes que a chamavam. Durante muito tempo teve um diagnóstico de Terror Noturno, com alguma redução com a psicoterapia. Sua mãe, praticante de uma religião espiritualista, dizia que se tratava de mediunidade. Desde cedo levava a C.G. para tratamentos espirituais que, apesar de reduzirem os transtornos temporariamente, não eliminavam os problemas freqüentes.      Com a adolescência, C.G. viu sua vida transformar-se em um inferno. Ficavam mais acentuadas as percepções, os pesadelos e as crises de angústia e ansiedade. Até que começou a perder o sono, deixar de ir a escola e ficar trancada em casa com medo do que podia acontecer se saísse.     Agora, aos 21 anos, tinha certo controle sobre essas reações, mas o medo das visões, dos pesadelos ameaçadores, das vozes e sussurros que ouvia sem identificar de onde mantinham-na em constante sobressalto. Passara a freqüentar uma Instituição religiosa espiritista onde participava apenas de trabalhos assistenciais. Nessa Instituição falavam que ela tinha uma sensibilidade, um nível de para-normalidade que deveria ser “desenvolvida”.      Mas. C.G. não podia sequer ouvir falar nisso, tremia, tinha sensação de vertigem etc. Até entendia que poderia ser necessário, mas não conseguia se ver em contato com “espíritos”.       Quando começamos o tratamento visando ajudá-la a superar seus medos e sua insônia, abordamos a questão dela poder se deparar com esse tipo de situação no passado. Essas faculdades especiais sempre existiram e foram motivos de muitas perseguições e enganos de toda a ordem pela história da humanidade. Alguns estudos revelam que só a Inquisição, que durou entre 1500 e 1800 d.C., condenou à fogueira 2.000.000 de “bruxas”. Isso mesmo. Dois milhões de mulheres que foram tratadas como feiticeiras.     Em sua primeira regressão de memória, C.G. se lembra de uma vida passada sua na Idade Média como uma mulher que identifica, (que tal possuía?) também desde a infância, dons especiais. Tinha recursos de aliviar a dor com a imposição das mãos que sentia esquentarem enormemente durante o trabalho. Com a adolescência começou a identificar ervas na floresta que intuía serem boas para certas moléstias comuns na época e na região. A princípio não se incomoda com isso achando até divertido e prazerosa a admiração que as pessoas tinham por ela.      Em um dado momento ela é levada à presença de uma outra mulher com poderes semelhantes, mais velha que a jovem para-normal. O objetivo era treiná-la, aperfeiçoar suas habilidades e desenvolver seu potencial de cura. Tudo começa bem até que a velha “bruxa” começa a perceber os enormes talentos da jovem, muito maiores que os seus próprios. Reconhece que muitas vezes recomenda ervas e procedimentos sem serem provenientes de suas faculdades que parecem “falhar” em alguns momentos. Isso parece não ocorrer com a jovem sob seus cuidados. Uma relação de inveja, ciúme e competição começa a ser deflagrada, mesmo sem o conhecimento da jovem sensitiva. A velha “bruxa” envolvia-se cada vez mais com rituais onde acreditava aumentar a sua força e seu poder. Manipulava forças da natureza e mentais para atingir seu objetivo. A jovem temia isso, mas não podia sair daquele lugar. Tinha muito medo da velha.     Com o tempo, as pessoas começam a procurar cada vez mais a jovem em lugar da velha “bruxa”. A velha começa a reagir agressivamente, tenta impedir a ação da jovem a qualquer preço. Até que um dia a velha indica uma erva para o tratamento de uma criança da vila e a jovem discorda veementemente. Diante do impasse a bruxa ameaça os pais da criança que cedem e cuidam da criança com o remédio indicado. Só que a criança morre dias depois. A fúria da vila recai sobre a velha.     Fechada em sua casa com a jovem personagem de C.G., a velha tranca tudo enquanto o povo está lá fora entre um misto de ódio e medo. Todos temiam, pois tinham dúvidas) se a velha poderia ou não provocar o Mal. Mantida refém a jovem se vê acusada pela velha da sua derrota e da sua humilhação. A situação chega a um impasse crítico. As pessoas estão pressionando a porta, querem entrar. A velha bruxa não quer deixar isso acontecer, pois sabe qual será o desfecho: uma dolorosa morte. Assim completamente desequilibrada, chama a jovem e diz que vai se matar mas que ela, a jovem, vai sentir os efeitos de sua ira e de seu poder mesmo depois de (sua morte) morta. Tudo vai dar errado na vida dela e toda vez que ela fosse receitar alguma coisa ela ficaria com o medo de cometer o mesmo erro. Esse seria o seu fim. Depois dessa “maldição” se mata com um veneno poderoso que extingue a vida em segundos.     As pessoas ao saberem voltam para suas casas, mas a jovem sensitiva continua na casa. Começa então o seu drama. Não consegue dormir, pois seu sono é visitado por sombras e sobressaltos. Tem medo de que aconteça algo ruim a cada momento. Já não tem confiança em atender as pessoas que a procuram.      Uma noite está sem dormir com as mesmas sensações quando ouve ruídos estranhos em volta da casa. Apavorada, precipita-se escada abaixo e, inadvertidamente, derruba um castiçal com velas que iluminavam a passagem. No seu desespero não consegue apagar as chamas que consomem rapidamente o local. Presa, sem ter saída, no meio de sua loucura, acha que ouve as gargalhadas da velha bruxa ecoando pelo meio das chamas. Morre queimada e enlouquecida. Fora do corpo mantém a atitude temerosa e desequilibrada de quando estava ainda no corpo físico. Atribui naquele momento de continuação de seu horror, que todo o seu sofrimento foi devido à sua sensibilidade. Esquecera de quantas pessoas tinha podido ajudar e prende-se ao desfecho trágico. Principalmente, lembra-se, ecoando em sua mente, as últimas palavras da bruxa, uma Maldição. Tomada de espanto e pavor decide que nunca mais quer saber dessas coisas, desses “poderes”, dessas para-normalidades.      Não se deu conta de que a vida dá voltas e, muitas vezes, nos faz retornar do ponto que deixamos um trabalho a ser realizado. Hoje, C.G. voltava a possuir dons especiais. Vivia (ou vive?) um novo contexto (acho que a palavra contexto não está bem contextualizada) de uma velha sensibilidade. Pode perceber que o que a atemorizava era o efeito da maldição que ecoava em seu psiquismo como uma ameaça a ser cumprida a qualquer momento. Ao se dar conta disso pode sentir-se mais tranqüila e, reduzido o medo, poder avaliar de forma mais equilibrada qual seria o papel dessa sensibilidade na sua vida de hoje. Como, (por exemplo), dar um novo sentido a uma realidade de uma constatação: tinha esses dons especiais. Ao permanecer identificada com essa vivência perdia a chance de dar uma nova direção a sua vida. Poderia agora, mais livre, decidir o que queria fazer com tudo isso.     Em uma outra sessão pôde se deparar com a mesma “velha bruxa” como uma “presença” que a cobrava de uma traição em outra vida em comum. Mas isso é um outro capítulo da história…

 Caso Clínico: Impulso de Agressividade

 O “GENERAL” SOLITÁRIO   Todos o chamavam de “O General” no ambiente de trabalho. J.A. era um excelente auditor pleno de uma conceituada empresa de consultoria multinacional. Sua carreira tinha sido meteórica e assumira cargos de responsabilidade e de gerência com poucos anos de trabalho. Era conhecido por sua inteligência, seu conhecimento e perspicácia e… por seu temperamento agressivo. Daí o apelido: O “General”.   Quando começou a tomar consciência de seu problema J.A. começou a sofrer com seus impulsos de agressividade. Essa era a sua queixa principal: não sabia porque não conseguia controlar os impulsos de violência que tinha.   O problema sempre existira em casa, no ambiente familiar desde o casamento com sua mulher. Após o nascimento do primeiro filho o problema assumiu proporções preocupantes. J.A. já tinha agredido fisicamente seu filho de forma incontrolável, quase gerando uma tragédia, além de diversos episódios com sua mulher e demais filhos.   No trabalho esse comportamento era mais contido, mas usava a ironia e sempre procurava evidenciar os erros dos companheiros de forma implacável. “Vou mostrar que eu estou certo. Sempre certo!” Reconhecia ser esse o seu pensamento irresistível nessa hora.   Sente um misto de prazer e de constrangimento quando se referem a ele: “Lá vem o General”.   Esse comportamento muitas vezes quase irresistível começava a trazer graves problemas e sofrimentos para nosso cliente.   O problema que J.A. trazia era indicativo de um tratamento com a Terapia de Vida Passada. Apresentava um comportamento inadequado, exagerado, que traz graves repercussões negativas e muito sofrimento. A despeito de ter consciência da inadequação não consegue controlar o impulso no momento em que ocorre. Faltam recursos para que, naquele momento, tenha uma reação mais adequada.   Esses complexos de reação que apresentam grande carga emocional (raiva, irritação e agressividade) normalmente sugerem a existência de conteúdos Inconscientes que são acionados em determinada circunstância, às vezes por um certo estímulo. A partir daí, o indivíduo pode ter uma conduta completamente diferente da habitual ou esperada para o seu padrão cultural, sócio econômico ou mesmo referente á sua tipologia psicológica básica.   Ao contrário do que se imagina, uma queixa como essa costuma demandar uma série de vivências onde o indivíduo pode reviver situações em que essas reações forma cristalizadas em seu psiquismo.   As regressões de J.A. revelaram padrões de dominação, de um caráter muito belicoso, excessos de poder, prazer pela supremacia conquistada pela força, posição de influência ou pela inteligência apurada.   Em uma de suas regressões se vê como um menino de 6a, filho de um marinheiro bruto, grosseiro e bêbado. Seu pai, como marinheiro passa muito tempo longe de casa, à bordo dos navios onde trabalha. Sua mãe e outros filhos passam por muitas necessidades, até fome.   Em uma de suas voltas para casa, o pai, bêbado, exige que sua mulher faça sexo imediatamente, na frente das crianças. A mulher assustada tenta esconder os filhos para que não sofram presenciando a cena que vai ocorrer. Ao perceber a sua intenção, o pai levanta-se e pega o menino, nosso cliente, violentamente. Empurra e começa a bater em todos. Nosso cliente fica apavorado com a violência. No meio da agressão, o pai se dirige diretamente ao nosso cliente e vocifera: “Você tem que virar homem. Aprenda a ser homem comigo!”   Se transforma em um adulto rude, grosseiro como seu pai. Entretanto, não quer contato com as pessoas, principalmente com as mulheres. Vive como pescador em um pequeno povoado distante de sua terra natal. Morre novo ainda em uma tempestade sem que ninguém se preocupasse com a sua ausência. Fora do corpo se ressente da solidão e vive um conflito entre ter sido rude para ser um homem, mas ter terminado sozinho, sem ninguém. Também pensa que poderia ter feito o mesmo que seu pai fazia com sua mãe se tivesse se casado.   Em uma outra regressão durante seu processo terapêutico, J.A. se lembra de uma vida onde foi um jovem soldado, treinado para comandar. Durante uma batalha mostra seu valor derrotando um grupo numeroso de inimigos chegando à condição de comandante.   Destaca-se ao longo de sua carreira como soldado corajoso e dedicado. Destemido enfrenta todos os seus inimigos demonstrando grandes habilidades na estratégia de combates. Promove verdadeiros massacres que lhe garantem prestígio crescente junto ao governo que defende. Mantém a união da tropa com pulso forte e exemplo disciplinador. Durante a regressão, J.A. percebe o prazer que sente com o destaque e a evidência que o poder lhe conferem. Passa a valorizar posições cada vez mais elevadas na hierarquia militar não titubeando em passar seus companheiros para trás em busca de promoções.   Da mesma forma que vai avançando na hierarquia, também crescem os seus inimigos declarados e disfarçados.   Um dia recebe uma notícia de um informante sobre um levante que rebeldes contrários ao governo estariam tramando sigilosamente. Ávido de mais poder não checa as informações e reúne pequeno grupo de homens para surpreender o inimigo e com isso, apresentar-se como o salvador do governo e conseguir mais prestígio.   Quando chega ao local em um bosque perto onde presume estar acampado o bando, só encontra ruínas vazias. Depois de uma verificação, percebe que o local está cheio de soldados de suas fileiras, armados e esperando-o para uma emboscada. Percebe que mesmo os que estão com ele, já sabiam da emboscada e fica furioso. Ao se dar conta do que está por acontecer fica cego de ódio e parte para cima de alguns dos soldados mais próximos. Sua coragem e força fazem com que ainda acabe com a vida de vários soldados antes de cair ferido mortalmente. Enquanto brandia sua espada está cego de ódio, não pensa em nada apenas na traição que sofrera. Sua força se agiganta chegando a atemorizar os demais soldados. J.A. relata seus pensamentos nessa hora: “Seus vermes. Pensam que estão tratando com quem? Quem vocês pensam que são? Posso morrer mas vocês também vão comigo… Eu não posso acabar assim. Sou muito melhor que eles. A se eu tivesse mais força…”   Morre nosso soldado fixado no ódio por Ter sido vencido no auge de sua vida, cheia de projetos e conquistas de poder e glória. Após a morte decide que nunca mais vai deixar ser pego de surpresa novamente e vai sempre reagir ante o menor sinal de ameaça para não perder a vida e o poder.   Essa decisão, tomada em um momento de extrema emoção e conflito marcara decisivamente a forma de agir de nosso cliente. Percebia agora como suas reações violentas e impulsivas atendiam a esse apelo inconsciente de não se deixar pegar de surpresa, como se fosse impelido a agir imediatamente evitando a perda do seu poder e prestígio. Mesmo que as situações fosse diferentes hoje, reagia como forma de garantir seu poder e domínio.   J.A. pôde observar que teve várias existências onde se repetiam os mesmos argumentos. Pretendia manter o poder ou buscá-lo obstinadamente. Só assim, julgara ele, conseguiria segurança, valorização, prestígio e a felicidade. Com o trabalho em cima do Sistema de Crenças e Valores que presidiam suas ações, pôde perceber claramente que sempre buscara a conquista do valor fundamental PODER. Julgar que Ter poder er essencial para asua felicidade. Muitas vezes associara esse valor, PODER, ao da JUSTIÇA e da EXATIDÃO. Com isso, buscara muitas vezes que as coisas funcionassem do seu modo, a qualquer preço em nome do que era certo e justo, segundo a sua visão. Percebeu ainda o quanto estava identificado com esses valores até hoje.   Ainda buscava ser obedecido, não admitia ser contestado pois se sentia ameaçado e impunha seu ponto de vista ou manipulava as situações par que prevalessesse a sua opinião ou se destacasse diante dos outros.   Pôde observar que a conseqüência disso tinha sido um investimento de energia muito grande que o levavam a um cansaço existencial e físico. Começou a perceber que o valor PODER para trazer FELICIDADE tem que estar associado ao desenvlvimento de outros valores fundamentais como a NÃO VILÊNCIA nas suas diversas formas de manifestação, a FRATERNIDADE, o RESPEITO ÀS DIFERENÇAS, a SERENIDADE etc.   A forma que a vida encontrou para mostrar-lhe isso foi a Solidão. J.A. percebeu que a maior conseuqência de sua conduta tinha sido o distanciamento de todas as pessoas de suas relações. Quando se chegavam eram por necessidade, interesse ou temor. Poucos ainda nutriam afeto pro ele e, mesmo esses, não sabiam como chegar, temerosos de serem agredidos e escorraçados.   Sensibilizado perceber ainda, que não precisava largar suas habilidades e poder de liderança. Entretanto esses talentos tinham que estar hoje à serviço de uma nova ordem de valores que o aproximavam da afetividade, da amizade, da tolerância e do Amor.   A transformação difícil que se iniciara iria desafiá-lo em muitas oportunidades onde aqueles traços de caráter se apresentariam. Porém, agora, tinha recursos de consciência para fazer novas escolhas e perguntar: “O que realmente é importante para a minha vida agora?”

 Caso Clínico: Um Caso de Fobia.

    Muitas pessoas sofrem de medos exagerados de alguma coisa: um animal, um local, uma situação específica etc. Quando esses medos se repetem de forma intensa e incontrolável podemos ter um diagnóstico psiquiátrico de fobia. Diante do chamado agente fóbico, a pessoa é capaz de repetir uma reação muitas vezes irracional, em termos de comportamentos, pensamentos e sentimentos, como se de fato ele estivesse diante de um perigo inevitável. Esse padrão de comportamento é desproporcional ao perigo real que a situação ofereça e esse é um dos maiores conflitos e sofrimento do fóbico: entende que seu medo é exagerado, mas não consegue reagir de forma diferente.   Esta repetição de um padrão de comportamento de que estamos falando não se dá em nível consciente. Este é que é o grande problema. Nós passamos a repetir um determinado padrão por conta de um força irresistível que é a experiência ou decisão de vida passada. Na verdade o conteúdo inconsciente é tão forte e atuante no psiquismo que ele não se submete ao crivo da razão, ele “atropela” a razão determinando o comportamento. Este é um dos motivos do sofrimento dos clientes: constatar a incoerência aparente dos seus comportamentos inadequados.   Estas observações ficam facilitadas na análise de determinados casos fóbicos, por exemplo. Como explicar um medo exagerado que uma cliente nossa tinha de lagartixas? Sim, lagartixas. Sua aversão a este pequeno animal chegou a tal ponto que ela era incapaz de entrar num cômodo de sua casa, ou numa casa estranha, sem antes percorrer com os olhos, detalhadamente, todos os cantos do chão e do teto para certificar-se de que não havia a possibilidade de “vários daqueles animais caírem sobre mim”, dizia ela. A cliente admitia que seu comportamento era exagerado, mas simplesmente não conseguia deixar de ter pavor com a possibilidade de entrar em contato físico com aquele animal.   Seu comportamento começou a se agravar, chegando a assumir comportamentos obsessivos de verificar o boxe antes de tomar banho, mantendo inclusive os óculos durante o banho. Realmente um comportamento completamente inadequado mas, por outro lado irresistivelmente repetido e que passou a se agravar ao longo do tempo. Quando procuramos discriminar os componentes de seu medo, descrevia estes animais como “nojentos, pegajosos, frios, rastejantes, moles mas flexíveis, ágeis e peçonhentos”… como podemos perceber havia uma grave distorção na sua percepção daquele animal na medida em que lagartixas não são venenosas ou peçonhentas, como disse. Ao relatar isso sentia náuseas, arrepios pelo corpo e falta de ar.   Levada ao passado, se vê numa vida passada como uma jovem muito pobre que perambulava pelas ruas como mendiga com outros tantos desafortunados da época, formando um grupo de umas 20 pessoas. Parece que a época era de uma grave crise social onde muitas pessoas estavam na mesma situação. A personagem de nossa cliente é apanhada, juntamente com a maioria de seu grupo, por guardas do governo local, que os aprisionam num escuro e frio calabouço. As condições ali são péssimas, faltando luz do dia, comida e água.   Em poucos dias eles todos estão mais enfraquecidos ainda e, para sua surpresa e desespero são abertas pequenas janelas na parte superior do calabouço, altas demais para possibilitarem uma fuga e de onde são atiradas inúmeras cobras venenosas “caindo sobre suas cabeças”. A fraqueza, a debilidade e a falta de condições de reagir contra o grande número de répteis, faz com que todos sejam picados diversas vezes em um clima de extremo desespero e dor. Diante dos efeitos das primeiras picadas, nossa personagem cai no chão e guarda na sua memória principalmente as sensações e sentimentos vividos nos momentos em que, ainda com um resto de vida, percebe as cobras passando por cima de seu corpo, inchado e dolorido, além de uma alucinante dor de cabeça que impede naquele momento a organização de qualquer tipo de pensamento mais equilibrado.   Após essa sessão a cliente identificou uma situação na sua infância da vida atual, onde foi surpreendida ao acordar com uma lagartixa sobre seu corpo. O susto e o medo foram incontroláveis e, num choro compulsivo, repetia para sua mãe a sensação de asco ante o contato na pele com aquele bicho gelado e escorregadio.   Este evento, que costumamos chamar de Evento Desencadeador, fez com que ela trouxesse do Inconsciente uma situação traumática de uma existência passada.   A reação passou a ser a de temer a repetição da situação conhecida, já vivida no passado, com um desfecho de muita dor, desespero e morte. Deslocado para a lagartixa, por conta de algumas semelhanças físicas com as cobras do passado, o mesmo medo se fez presente. O Inconsciente estava sempre a lhe dizer que deveria evitar a qualquer preço o contato com aqueles animais, caso contrário poderia sofrer muito, mas o Inconsciente não diz a ela porque ela deveria temê-los. Aí a contradição. A reação emocional é tão forte, tão intensa que não se submete a uma avaliação pela razão que possa tornar mais adequado o comportamento, ou que possa avaliar com maior nível de equilíbrio se realmente a situação exige ou não aquela reação frente a um suposto perigo.   Quando este conteúdo se torna consciente, através da Regressão de Memória, possibilitamos, aos nossos clientes, preencher este hiato que existia no entendimento do problema, esta lacuna que não consegue explicar a reação ou comportamento inadequado. Sim porque não podemos desconsiderar o sofrimento do cliente só porque não podemos entendê-lo a partir de sua vida atual ou dos relatos que traz, conscientemente, durante as primeiras sessões. Consideramos sempre que este sofrimento é real, só que pertence ao passado e é repetido hoje, por um mecanismo de proteção do nosso psiquismo que quer preservar-nos de uma nova situação tão desagradável.   Através do conhecimento deste conteúdo que impulsionava nosso comportamento, somos levados a considerar, pela razão, os reais motivos do passado que nos levavam a tal comportamento e, desta forma, facilitar-nos a compreensão e o entendimento de que aquele comportamento ou reação eram coerentes para aquela personagem do passado que sofreu, no caso de nossa cliente, uma morte violenta ocasionada pelo veneno das diversas cobras. Mas para sua personalidade de hoje não fazia mais sentido sentir medo das lagartixas que ela, em algum momento, julgou parecidas com as cobras.   Com este conhecimento, o consciente do indivíduo passa a modificar o Padrão, criando alternativas, percebendo novas possibilidades de reação diante desses problemas. É claro que apenas a lembrança do conteúdo traumático do passado não libera o indivíduo de seu problema. É possível até que os sintomas desapareçam mas é preciso avançar um pouco mais e verificar quais são os fatores constitutivos da personalidade do indivíduo que o predispõe aquela fobia.   No caso acima, nossa cliente começou a constatar que, como em outras regressões que foram feitas para o problema de relacionamento com sua mãe, ainda repetia um padrão de controle excessivo sobre as coisas à sua volta. Esse padrão controlador expunha-a às situações onde esse controle foi precário ou muito doloroso. Reconheceu que precisava ser mais flexível nesse aspecto concentrando aí seu processo de transformação. Pensar apenas na “cura” dos sintomas é empobrecer o potencial terapêutico que a Terapia de Vida Passada oferece na compreensão das características de personalidade que vem se arrastando por vidas à fio cuja manutenção vem acarretando desequilíbrios e dores. Ao entender sua dinâmica de valores, crenças e como vem funcionando ao longo de suas existências, o indivíduo pode assumir, mais conscientemente suas escolhas e mudanças determinando a superação do sofrimento ou a sua manutenção.

 Caso de TOC com Criança de 11 Anos.

   Recebi um dia, uma mãe muito preocupada com seu filho mais velho, de 11 anos de idade, que apresentava sintomas de Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC). Sua preocupação era grande, já que tinha histórico de Transtornos Psiquiátricos Severos em familiares de seu marido.   Dentre outras queixas, a mais relevante ela já conseguia identificar como um possível caso de TOC (Transtorno Obsessivo Compulsivo) . O sofrimento de J e de sua família, estava relacionado aos seus medos e pensamentos invasivos presentes todas as noites na hora de dormir. J perdia bastante tempo, todas as noites até conseguir cumprir todos os rituais necessários para que finalmente pudesse adormecer e descansar para um novo dia.   Com as conversas iniciais com os pais e com o próprio J, fui explorando e entendendo mais e mais estes rituais e de que forma eles prejudicavam a vida de J e sua família.   Os rituais envolviam tarefas que J tinha que realizar como, por exemplo, ter que descer de sua cama beliche e ir até a cozinha pegar água e voltar ou ter que ir até a sala e arrumar todos os objetos de lá (controles remoto, almofadas e etc). Enquanto ele resistia em fazer as tarefas, era atormentado com pensamentos ruins e torturantes que o faziam acreditar que se não as fizesse sofreria com a morte de seus pais ou irmão. Esses pensamentos incessantes não o deixavam dormir. Depois de vencida esta etapa, novo ritual se fazia necessário para que J conseguisse finalmente pegar no sono. Ele precisava desta vez, dar boa noite em voz alta deitado em sua cama para todos os moradores de sua casa e precisava ser respondido por todos eles. Além disso, tinha que falar uma última frase de despedida que não podia ser respondida por ninguém. Suas palavras tinham que ser a última coisa a ser dita. Se algum membro da família falasse algo mais, J tinha que repetir sua longa saudação até que todos os requisitos estivessem atendidos para que ele finalmente pudesse dormir sem a ameaça assustadora da morte de um de seus familiares.   Isso estava se tornando muito cansativo e torturante para todos em casa, e principalmente para J que sofria intensamente com as ameaças de seus pensamentos obsessivos.   Fiquei muito mobilizada com o caso de J e pensei nas diversas técnicas que poderia utilizar para acessar a causa do seu sofrimento e ajudá-lo a aliviar sua dor.   Na primeira consulta que tive com J, conversamos a sessão inteira sobre seu sofrimento e fui esmiuçando os detalhes de seu TOC e outras queixas que ele trazia. Me chamava a atenção a sua postura, encolhida na poltrona e sua fala quase que inaudível quando relatava questões que lhe traziam um desconforto maior. J se mostrava um menino doce, muito inteligente, sensível e com uma grande capacidade de se comunicar e articular seus pensamentos no setting terapêutico. Tomei nota de tudo que ele ia relatando, fiz muitas perguntas e por fim expliquei a ele para que servia a terapia e como trabalharíamos ali para ajuda-lo a superar seus sofrimentos e dificuldades.    Na sessão seguinte, resolvi usar uma abordagem de Constelação Sistêmica usando bonecos Playmobil para fazê-lo reviver e me mostrar mais concretamente o que acontecia todas as noites na hora que ele se deitava pela primeira vez, tentando dormir. J usou móveis de brinquedo para montar o seu quarto no chão da minha sala, escolheu os bonecos que representariam ele e seu irmão mais novo (que dormia na cama de baixo) e arrumou os bonecos em sua cama. Começamos a conversar e pedi que ele imaginasse e escolhesse bonecos ou objetos que representassem o que estivesse causando todos aqueles pensamentos perturbadores na hora de dormir. J olhava fixamente para os bonecos. Num primeiro momento pegou três deles em suas mãos e mantinha o mesmo olhar fixo. Pedi que ele colocasse aqueles bonecos (a causa daquela perturbação) no lugar que elas de fato ocupavam dentro ou fora do seu quarto. J arrumou-os ao lado de sua cama sem desgrudar o olhar deles nem por um segundo. De repente ele tirou dois dos bonecos deixando apenas um deles (um Playmobil preto e prata, com uma mancha verde e vermelha ainda “sujando” o seu peito). Depois de um longo tempo de J encarando o boneco, perguntei a ele se aquele ali tinha a ver com a causa de toda aquela perturbação. J respondeu que sim e completou dizendo que aquele “guerreiro português” era o responsável por tudo aquilo. Com certeza uma estória significativa do passado de J começava a se descortinar a nossa frente…    J relata neste momento espontaneamente: “Eu já matei esse guerreiro em uma luta.” Considerei naquele momento que este guerreiro poderia ser uma influência espiritual que acompanhava meu pequeno cliente há muito tempo, participando de alguma forma de seu sofrimento.   Perguntei o que o guerreiro português sentia por J para estar hoje provocando tanto sofrimento em sua vida e ele me respondeu que o guerreiro sentia muita raiva. Pedi que J me contasse o que aconteceu entre ele e o guerreiro português para que eles estivessem ligados até hoje e daí uma estória forte e emocionada emergiu.   J começa a narrar uma situação onde ele se vê como um homem que luta com o guerreiro português, o golpeia com muita raiva e o mata com um profundo corte na barriga. Voltamos mais no tempo para entender o que acontecera antes nesta vivência para que seu personagem viesse a matá-lo assim com tanta raiva.   Vamos para o primeiro momento importante onde J se percebe liderando o seu grupo de homens para invadir e saquear um vilarejo. Além de saquear, parece que eles matam pessoas e destroem suas casas. Com isso, eles ganham um grupo de rivais que passa a nutrir grande ódio e desejo de vingança.    Em seguida, se vê retornando de uma batalha onde avista sua casa pegando fogo e encontra sua esposa e seus dois filhos mortos. Nesse momento vi o meu pequeno J de hoje chorar, se emocionar e sofrer como um adulto ao reviver o acontecido. Mesmo sem entender direito o que estava acontecendo J podia já ser beneficiado pelo processo escoando a intensa dor e sofrimento de voltar para casa e ver seus familiares mortos pelo bando inimigo.   Ali, naquele momento de dor, seu personagem do passado decide ir atrás do líder do grupo rival (o guerreiro português) e acabar com ele. Começamos a entender o motivo daquela morte enfurecida e violenta da primeira cena que emergiu em nosso trabalho.   Explorei mais um pouco até compreendermos que a dor que seu personagem sofreu nesta vivência, perdendo a família inteira naquele incêndio, se inicia quando, junto com seu bando, saqueou aquele vilarejo e destruiu da mesma forma as casas e famílias de todos aqueles homens que sequer conheciam gerando um ciclo de ódio e vingança onde ele mesmo vai ser vítima depois. J avalia que eles poderiam ter apenas saqueado o local, sem ter tirado a vida daquelas pessoas ou destruído suas casas.   Chequei com J se ele estava compreendendo o que ocorria ali. Ele me respondeu que não. Mas J não parecia desejar ou precisar de muita explicação. Isso é um fenômeno que costuma acontecer na terapia com crianças.   Fechamos o trabalho num papo de acerto de contas onde J, emocionado, com a voz embargada quase que sumindo, pede perdão ao guerreiro português por toda a maldade que fez com sua família e todo o pessoal do seu vilarejo. Aqui acontece um dos momentos mais significativos da sessão: J relata que o guerreiro português aceita seu pedido de perdão, vira de costas e vai embora. O semblante de J se torna sereno e tranqüilo, apesar de aparentemente cansado.   No fim da sessão, orientei a mãe de J que observasse as possíveis repercussões que o trabalho daquela sessão traria. Pedi que observassem como ficaria o TOC à partir disso.   Na sessão seguinte, fui surpreendida quando J e sua mãe chegam me contando que depois daquele nosso único trabalho J pode agora dormir sem ter que repetir todos aqueles rituais. Ele já não sofre mais com aqueles pensamentos torturantes e pode deitar e dormir como a maioria das crianças faz. A minha surpresa foi a significativa melhora com apenas uma sessão com trabalho vivencial. Muitas vezes, serão necessárias várias sessões para que a criança consiga superar as dificuldades que traz para a terapia. O próprio J, à partir dessa sessão, passou a trazer outras questões que interferiam na sua vida.   Outra coisa importante a dizer é que este é apenas um caso de TOC. Cada caso terá uma causa diferente já que cada um de nós constrói a sua estória por caminhos diferentes.

                                                                                                                               Daniele Vanzan – Terapia de Vida Passada com Crianças

Uma Dor na Alma.

   P.C. era um homem com presença marcante onde chegava. Olhos vivos, fala fluente e envolvente. Professor universitário destacar-se no desenvolvimento de projetos de pesquisa na área de engenharia de produção que colocaram durante algum tempo em evidência nacional e internacional. Hoje com 42 anos tinha uma carreira sólida mas sua história de sucesso profissional sempre foi acompanhada de uma dor, silenciosa e tenaz.   Desde que seus primeiros trabalhos de pesquisa vieram à discussão acadêmica, começou a desenvolver uma forte dor nas costas, na altura da coluna cervical. Todos os esforços em solucionar o problema resultaram em fracasso. Acreditava tratar-se de algum desvio de coluna talvez causado pelas horas excessivas diante do computador, talvez uma posição inadequada de sentar. O fato é que tinha que conviver com longos períodos de dor e desconforto. A acupuntura trouxera um pouco de alívio apesar das necessárias aplicações freqüentes para manter a dor sob controle.   P.C. queria saber se essa dor poderia ter algum componente inconsciente que estivesse associada a algum trauma do passado. P.C. tinha uma vasta leitura e cultura geral. Tinha se debruçado, durante algum tempo, na leitura de livros que falavam da TVP como forma de desbloqueio de traumas de vidas passadas. Quando apresentamos nossa forma de trabalho coloquei uma pergunta que, depois veio a me confessar, ficara em sua mente: “Mas porque você estaria identificado a esse trauma causador da dor e não a um outro qualquer?”.   Começamos o tratamento e quando começamos a coloca-lo em regressão P.C. demonstrou ser um indivíduo com grandes facilidades de entrar em um Estado Ampliado de Consciência. Tinha o que chamamos de regressão Vívida, ou seja, revivia com intensidade emocional e física os eventos que recordava de seu passado.   Na primeira sessão de regressão, P.C. se vê como um líder de pequeno povoado à beira de um rio caudaloso fonte das principais necessidades de sobrevivência. P.C. se vê como um homem muito cheio de si, apesar de trabalhador e honesto. Chegara a liderança do povoado por sua grande capacidade de mobilização e por suas idéias fortemente defendidas e colocadas em prática. Era um destemido. E se orgulhava disso. Chegava, muitas vezes, à beira da presunção de ser o mais inteligente e capaz entre todas as pessoas que conhecia. Isso lhe trazia a auto-confiança necessária a um líder, mas também, a cegueira em relação aos limites do nosso conhecimento.   Em determinada época, começaram a repetir-se períodos de enchentes que ameaçavam a segurança do povoado. Era preciso tomar uma providência. Reuniu-se o conselho da cidade que participava das decisões que afetavam a administração do povoado. A maioria era favorável à mobilização dos homens para a construção de uma espécie de barragem que protegesse o povoado de uma possível nova enchente. Mas isso comprometia a produção de gêneros já que a mobilização dos homens reduziria a força produtiva. O personagem de P.C. assume uma posição isolada contrário à construção da barragem. Achava que era uma exagero essa mobilização toda, algo desnecessário. Depois de longa discussão o líder pressiona e assume os riscos de sua decisão: não vão construir barragem alguma e os homens continuam na produção para garantir o sustento da comunidade.   Dias depois acontece o inevitável. Uma tempestade eleva de tal forma o nível das águas que inunda o povoado. A correnteza leva de roldão casas, parte da plantação preparada para o futuro e, principalmente, muitas pessoas. Ao perceber o que está acontecendo e a gravidade, nosso líder comunitário se junta aos demais na tentativa de salvar o que for possível, sem muito sucesso.   Passado o temporal e a enchente, P.C. tem que enfrentar a situação. Reconhece intimamente a sua decisão equivocada diante da maioria que queria segurança, mesmo que com restrições de comida. Entretanto, diante das pessoas do povoado, manteve sua postura defendendo a decisão como sendo a mais adequada. Sofre as acusações das pessoas, insatisfeitas com o desfecho da situação. Perde o cargo de líder e se refugia em lugar próximo ao povoado. Corroído pela culpa mas sem se dar conta de seu extremo orgulho, decide se matar, diante da vergonha. Atira-se de uma pedreira, morrendo em função da queda. Ao vivenciar a morte percebe a queda com intensidade física, sofrendo os efeitos da quebra de múltiplos ossos. A principal dor está nas costa, no mesmo ponto onde se localiza a dor de vida atual. Tínhamos encontrado a origem da dor, o trauma gerador que repercutia até hoje no seu corpo físico. A culpa e a queda ficaram como que condensada no seu psiquismo.   Ao terminar a sessão, já fora do Estado Ampliado de Consciência, perguntei a P.C. o que mais tinha lhe chamado a atenção na vivência. Ele relata a experiência de ver as pessoas sendo levadas e ele tomando a decisão de não fazer a barragem. Falamos sobre culpa, perdão e autoperdão. Ele saiu mais reconfortado e sem dores.    Quinze dias depois ao retornar para sua nova sessão. Abordou-me de imediato sobre algo que não saia de sua cabeça. Continuava com a dor nas costas, apesar de bem mas leves, é verdade. Ao fazer a tarefa de casa que eu passar sobre a vivência relata que voltava a pensar insistentemente na pergunta que eu lhe fizera sessões atrás: Mas por que esse trauma? Por que essa dor hoje?   Fizemos um novo trabalho retornando à mesma vivência, revivendo o personagem. Desta vez facilitamos para que ele percebesse o que era semelhante ainda hoje na sua forma de ser e de agir. P.C. tomou um verdadeiro choque. Não era só uma questão de culpa. Percebeu como ainda hoje era presunçoso e, às vezes, arrogante com seu conhecimento e sua posição da Universidade. Repetia uma posição de vaidade em relação a isso. Pôde reconhecer que sua morte naquela existência foi decorrência desse orgulho, ferido em sua estrutura de superioridade. Se matara por não conseguir enfrentar a necessária humildade de reconhecer que estivera equivocado, de se desculpar com aquelas pessoas de procurar reparar as conseqüências de sua decisão de alguma forma mais madura.   As lembranças desse passado e a própria dor o colocavam diante de uma consciência que nunca cogitara: era preciso transformar essa forma de ver a vida e a si mesmo. Poderia crescer com os outros mantendo o respeito as pessoas que não sabiam tanto quanto ele. E também ser capaz de ouvir e aceitar quando suas idéias fossem questionadas. Somente quando se deu conta do esforço que precisava empreender para mudar esse traço de caráter e começa, efetivamente, a muda-lo em seu dia a dia, P.C. se liberta das dores. Na verdade, se libertava desse passado presente e transformava-se ara seu futuro.

Uma lembrança Intra-Uterina.

   A utilização da técnica regressiva na Terapia de Vida Passada nos coloca, muitas vezes, diante de situações inusitadas e ainda desafiadoras para a ciência tradicional. Um desses fenômenos é a ocorrência de uma experiência regressiva onde, após a indução a um Estado Alterado de Consciência, o cliente começa a relatar uma lembrança de um período em que está no útero materno.   A grande surpresa é a possibilidade da pessoa poder se lembrar desse período e, mais ainda, reconhecer o uso de funções que normalmente são vinculadas pela ciência tradicional, ao desenvolvimento do sistema nervoso central. Para a ciência, não é possível a lembrança desse período ou a consideração das funções como pensamento, emoção, raciocínio, etc em função do córtex cerebral, estrutura responsável por parte dessas funções, ainda não estar desenvolvido.    Entretanto, o que os terapeutas de vida passada verificam em sua observação é a ocorrência de vivências nesse período onde o cliente além de se lembrar de fatos que depois podem ser confirmados por familiares e médicos, vivencia esses momentos com carga emocional e com avaliações surpreendentes. Essas vivências ocorrem naturalmente durante o processo e costumam revelar situações decisivas para o re-equilíbrio e para a superação de muitos problemas enfrentados por essas pessoas.    Um exemplo interessante ocorreu com uma cliente de 57 anos que nos procurou para superar um grave problema de relacionamento com sua mãe. Desde a adolescência ela reconhecia uma forma agressiva de tratar a mãe. Intolerante, irônica, às vezes vingativa diante de qualquer erro que a mãe cometesse, passou a adolescência com esse comportamento atribuindo-o à “fase instável e rebelde” de todo adolescente e, posteriormente, parte da vida adulta. O casamento na juventude, motivado por “um desejo de sair de casa e ter liberdade”, acabou por afastá-la de sua mãe, decisivamente.    A vida, porém, tem caminhos misteriosos e fascinantes. A velhice e a deterioração da saúde fez com que sua mãe voltasse a morar com nossa cliente. Sendo a única filha, de um total de 7 irmãos, que não tinha atribuições profissionais, foi quase forçada pelos irmãos a receber a genitora para os cuidados que a enfermidade exigia.    Agora mais madura, com um percurso de auto-conhecimento espiritual e de reflexão sobre suas dificuldades, nossa cliente passou a se inquietar com sua reação. Queria tomar conta da mãe, ser mais gentil e amorosa com ela, mas não conseguia. Simplesmente, não conseguia, por mais que se esforçasse.   Sentia uma aversão, uma raiva, hoje contida, mas que impedia uma dedicação mais natural. Sentia a diferença de reações entre os demais irmãos com sua mãe. Num primeiro momento nos procurou pensando “que devia ter alguma cosia no passado entre as duas para essa raiva gratuita”.    Definimos o primeiro foco da terapia a própria queixa da dificuldade de relacionamento com a mãe. Para surpresa de nossa cliente, as primeiras regressões trouxeram vivências de vidas passadas onde passara por situações de abandono. Ora sofrendo abandono de pais ou familiares, ora, ela própria, abandonando filhos ou companheiros.    Na seqüência da terapia, acabou por passar por uma vivência que seria decisiva para o seu processo de transformação.    Abordando, agora, a temática do medo do abandono, começou a vivência sentindo uma sensação de aperto, um incômodo físico muito grande. Em dado momento assume a posição fetal naturalmente. Perguntado como parecia o lugar em que estava exclama: “Na barriga da minha mãe! DESSA MÃE DE HOJE!”. E começa um choro intenso.    Começamos a explorar os detalhes dos fatos ocorridos nesse período e como a cliente os tinha vivido emocionalmente. Como tinha reagido a esses acontecimentos? Nosso princípio é de que o psiquismo sempre traz à lembrança aquilo que é importante para a superação do sofrimento em questão. Ela começa a relatar então que sua mãe quer fazer um aborto, quer matá-la, eliminá-la. O feto percebe, então, os pensamentos da mãe, suas reações: “Vai ser mais uma boca. O que vai ser de nós? Eu não podia ter deixado essa criança vir. Meu marido vai me matar… Não temos condições de ter essa criança”.     A cliente relata toda a sua percepção com choro intenso e sentindo raiva por não ser desejada, teme ser morta e se sente impotente pois o seu “destino está nas mãos daquela mulher que não a quer”. Ao perceber a situação começávamos a entender de onde vinha parte das dificuldades desse relacionamento conturbado. Mas havia algo desproporcional na reação atual. Comecei, então, a perguntar pelos sentimentos da mãe. Ela muda de foco e começa a perceber que a mãe está com medo, está triste, não tem raiva. Começo a explorar a percepção que aquele feto registrou, mas que poderia ter ficado fora de sua consciência nublada pelo temor e raiva de um novo abandono nessa vida.    Pergunto sobre os motivos do medo, da tristeza. Peço para que ela observe a situação da família que ela está por integrar fisicamente. Ela se dá conta da situação precária da família. Muitos filhos, muita dificuldade financeira, enfermidades de dois filhos pequenos (que depois vieram a falecer antes de nossa cliente “nascer”). Casa pequena, no interior do estado e sem condições básicas de sobrevivência. Nesse momento, fiz a pergunta que foi fundamental para uma mudança de rumo em todo o processo: “Será que sua mãe está pensando e sentindo tudo isso porque é VOCÊ que está para nascer ou ela teria essa reação para QUALQUER OUTRA criança que fosse nascer nessas condições?” O resultado foi impactante. Ela começou a chorar mais ainda, mas era um choro diferente. Percebe que sua mãe estava lamentando as condições duras e difíceis que mais um filho traria. Nossa cliente nesse momento pode re-significar toda a sua história de vida com essa mãe naquele momento. Mais do que entender ela sente que não era pessoal a reação de sua mãe, mas percebe que de fato se sentiu ameaçada, preterida, abandonada. Com as vivências anteriores lembradas naquele momento pelo terapeuta, compreende que repete um temor de longa data: o abandono.     Para terminar faço-a repassar todo o processo agora sob a nova perspectiva dos atores dessa história real. Ela entende agora, de forma empática, as possíveis razões de sua mãe. Mesmo tendo sofrido com essas reações ela pode dar um novo sentido ao acontecimento.    Era preciso ainda atingir uma última etapa no processo terapêutico. Essa etapa pode ser vivida pela cliente quando afirmei: “Com essa nova visão de tudo que aconteceu… perceba que sua mãe, apesar de todas as dificuldades, temores, dúvidas… não impediu que você viesse ao mundo. Isso foi um gesto de amor!”.